Despertador, banheiro, escadas. O cinzento e triste aspecto da rotina o recebia todos os dias de manhã, de braços abertos e com cara de ironia, parecendo gostar de ver aquele rosto cansado e aquele corpo pesado, movimentando-se involuntariamente pelo fato de já ter se acostumado com aquilo. Nada mais impressionava ou surpreendia, quando não monótono, era caos. Parecia realmente ter se habituado com aquele vazio e o fato de não ter o que contar. Parecia que tudo o que lhe possuía alguma mera importância, se esvaía aos poucos, quase que propositalmente, pois aquele era o seu destino, incompreensível, porém, por falta de outra opção, obrigatório. Suas madrugadas eram sempre iguais. Sentava-se na velha mesa, naquele cômodo cheirando a mofo e com um leve vento que entrava pela janela dos fundos, fechada, porém com uma fresta. Dizendo assim, não é de se imaginar algo agradável, mas ele já havia se acostumado tanto com esse lugar, que até parecia bom. Ali, desatava a escrever, escrever sua vida, apesar de vazia. Nunca estava sozinho, a saudade o acompanhava, além de uma garrafa de uísque que sempre terminava no chão. Todos os dias de manhã ele regressava ao quarto, mas naquele dia não voltou. Sua mulher desceu as escadas e o encontrou caído no assoalho empoeirado. Irônicamente, a luz do sol entrava alegre e fria pela fresta, formando um feixe de luz que conduzia ao olho do homem. A mulher levantou suas pálpebras e, observando sua pupila, pôde constatar que ele havia ido embora. Esboçando sutilmente um sorriso, pegou o livro no qual ele tanto escrevia e, ao folheá-lo, teve uma surpresa - todas as páginas estavam em branco.
(continua...)
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2 comentários:
continua!
adoro narrativas assim
Gostei. No entanto o primeiro período ficou excessivamente longo. Também sob a minha ótica julgo equivocada a vírgula no seguinte trecho: "Parecia que tudo o que lhe possuía alguma mera importância, se esvaía aos poucos".
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